Sabe gordinho, eu sempre fui contra qualquer homenagem póstuma, sempre achei ser do tipo de declaração tarde demais e acho que sempre soubeste disso, afinal muitos de meus devaneios eu dividi contigo. Pode parecer meio loucura, mas eu sabia que me ouvias e me entendias. O mais legal é que sempre entendeste minha vontade de ficar sozinha, sabia exatamente quando meu quatro trancado significava que eu apenas queria ficar só, ou quando minha solidão necessitava de uma boa companhia.
Nossa relação sempre foi assim, bem engraçada, não foste minha primeira escolha, e sabes disso, sabes que na verdade fiquei toda empolgada com o poodle branquinho com manchas pretas, mas aí no dia seguinte lá estavas, todo bonito e gordinho com seu pelo champagne, que sempre foi champagne por mais que todo mundo insistisse ser branco (Ô povinho daltônico, viu?). Estavas lá com aqueles olhinhos pretos e todo sem pretensões foi conquistando minhas havaianas, meus sapatos, minha cama, os cantos dos móveis, um pedaço de pão no café da manhã, as brincadeiras nas partes mais importantes do jornal e carinho e atenção no mais emocionante do filme ou da novela, foste conquistando o lado da janela do carro e o direito as lembrancinhas em cada passeio dado. Sem qualquer pretensão, escolheste ser o meu gordinho até quando eu não era das melhores gordinhas pra ti. Sem qualquer pretensão te tornaste o meu gordinho, o quilido da mamãe e o Betão do papai.
Confesso que houveram horas em que queria te matar, só que toda amizade é meio assim, com um pouco de ódio para equilibrar tanto amor. Era olhar para aquele olhar de culpa e ter vontade de rir e rir tanto da barriga doer, e ao final nada de bronca, dava um abraço e ficava assim por alguns segundos. Sempre foste muito esperto nesse ponto, porque sabias exatamente que aquele olhar meio inclinado para o lado esquerdo sempre me comovia, e quando não dava certo e levavas bronca da mesma forma, ainda assim vinhas para o meu lado e deitavas quase que como um pedido de desculpas, assim como fazias toda vez que me mordias. Nunca mordeste ninguém no mundo, só a mim, mas não tiro tua razão, às vezes eu era um saco. E assim a gente vivia, eu brigando contigo e tu brigando comigo, e ambos pedindo desculpas o tempo todo.
Toda vez que eu saia, esperava e sabia que ao voltar pra casa teria aquele momento de festa e acho que poucas demonstrações de amor são tão simples e tão sinceras. Era só te ver pulando, pedindo carinho e todo feliz pra me sentir em casa novamente. Porque eu sabia que estavas ali, mesmo que eu fosse a pior pessoa do mundo, ou a melhor, ou que tivesse fracassado, ou me superado, estavas ali quando eu não queria falar com ninguém, ou quando eu precisava falar até demais. É meio que aquele papo de fidelidade que a gente nunca entende ao certo até que se é a pior pessoa do mundo e mesmo assim tem aquela pequena criatura arranhando o canto da cama pra subir e ficar deitadinho ao lado.
Sabe gordinho, eras insuportavelmente mimado, curioso, teimoso e carente, mas eras o meu melhor amigo. E podias ser gordo, barrigudo, chato, pirento, alérgico e insuportável às vezes, mas eras o meu gordinho e pra mim o melhor gordinho de todos.
Agora, podes descansar ou pirar em paz, não precisas mais fugir dos banhos, só espero que ao menos estejas limpinho e cheirosinho daquele jeito só teu para encarar essa nova aventura. Espero, ainda, que tenhas te alimentado direitinho (o que não duvido muito, lembrando o quanto comias o tempo todo). E, agora, podes ficar feliz também já que ninguém mais vai te enganar com doces para que tomes aqueles remédios que tanto odeias. Divirta-te e te cuida…
Sabe gordinho, a verdade é que eu te amei cada segundinho, até quando tinha que acordar às cinco da manhã para passear.
Sentirei saudades.
P.S.: Desculpe-me por qualquer provável erro ortográfico ou gramatical (caso haja).
P.S. 2: E como era divertida a surpresa das pessoas com teu nome e eu nem precisei pensar muito, soube de cara, olhei pra ti e já sabia, seria Beto, também chamado de Betinho ou Seu Roberto.





